Dicionário Priberam da Língua Portuguesa
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Dúvidas linguísticas


No Presente do Indicativo do verbo sair, qual a razão por que a 3ª pessoa do plural não acompanha a raiz do verbo? Porque é saem e não saiem?
O verbo sair é um verbo parcialmente irregular, devido ao hiato (encontro de vogais que não formam ditongo; no caso de sair, -ai-) no infinitivo, decorrente da evolução da palavra ao longo da história da língua (lat. salire > sa(l)ir(e) > port. sair). Como este verbo conjugam-se outros que apresentam o mesmo hiato, como cair (lat. cadere > ca(d)er(e) > port. cair) ou trair (lat. tradere > tra(d)er(e) > port. trair), e derivados.
Por comparação com um verbo regular da terceira conjugação, como partir, é possível verificar as pequenas irregularidades:
a) Normalmente o radical de um verbo corresponde à forma do infinitivo sem a terminação -ar, -er ou -ir que identifica o verbo como sendo, respectivamente, da primeira, segunda ou terceira conjugações; no caso do verbo partir será part-, no caso de sair o regular seria sa-, mas há formas em que é sai-, como se pode ver na alínea seguinte.
b) Um verbo regular conjuga-se adicionando ao radical as desinências de pessoa, número, modo e tempo verbal. Por exemplo, as desinências do futuro do indicativo (-irei, -irás, -irá, -iremos, -ireis, -irão) juntam-se aos radicais regulares para formar partirei, partirás, etc. ou sairei, sairás, etc. No caso do presente do indicativo, esta regularidade é alterada em verbos como sair, só sendo regulares as formas que têm o radical sa- seguido das desinências (saímos, saís, saem); as outras formas do presente do indicativo (saio, sais, sai) e todo o presente do conjuntivo (saia, saias, saiamos, saiais, saiam) formam-se a partir do radical sai-.
c) A estas irregularidades junta-se a adequação ortográfica necessária, através de acento gráfico agudo, para manter o hiato do infinitivo em outras formas verbais (ex.: saísse/partisse; saíra/partira).

Muitos verbos que apresentam hiatos nas suas terminações do infinitivo têm geralmente particularidades (principalmente no presente do indicativo) que os tornam parcialmente irregulares (vejam-se, por exemplo, as conjugações de construir ou moer).

Respondendo directamente à questão colocada, saem não tem i por ser uma forma que retoma o radical regular sa- e não o radical sai-, como em formas como saio, sais, saia ou saiamos.




Para meu total espanto venho a verificar que termos ingleses como download, link, email, site estão incluídos no dicionário português da Priberam, como é que é possível que isto aconteça, quando estes termos têm logo tradução directa? Mas ainda mais inverosímil é como é que vão palavras inglesas para um dicionário português? Só porque alguns fazem o uso destes termos? Porque são usados num contexto informático?
Bem, lá porque uns fazem uso destes termos na seu quotidiano, ou porque outros preferem não tradução estes termos em contextos informáticos, não quer por isso dizer que tenha que se ir logo a correr inclui-los no dicionário português! Eu nas traduções que faço tento ao máximo que tudo seja traduzido, até o termo hardware traduzo para material.
Sabiam que os nossos vizinhos europeus fazem questão de traduzir tudo para as suas respectivas línguas? Sabem que os franceses até o termo *web* traduzem? Sabem que eles sim defendem a sua língua e gostam de ser quem são? Ao contrário de nós (alguns) que detestam ser portugueses e vão logo na primeira moda?!? Mas como é que isto pode ser possível num Portugal de hoje?!? Mais vale de uma vez por todas começarmos a falar inglês, não?!
Os estrangeirismos são uma questão sensível para muitos utilizadores da língua, a quem cabe sempre a decisão de os utilizar ou não. No entanto, fazem parte da evolução de qualquer língua e, como tal, não podem ser ignorados.

A função de um dicionário passa essencialmente por uma descrição dos usos da língua, devendo basear-se sobretudo em factos linguísticos, os quais devem ser apresentados o mais objectivamente possível, independentemente das convicções ou dos usos individuais de cada lexicógrafo ou utilizador do dicionário.

Quando num dicionário, nomeadamente no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa (DPLP), são registados estrangeirismos, aportuguesados ou não, esse registo é feito com base em critérios relativos à boa formação (que inclui o respeito ou adaptação a regras ortográficas, fonéticas e morfológicas da língua portuguesa), aliados actualmente a frequências estatísticas, e atentando ainda ao registo em outras obras de referência. Por outras palavras, se uma palavra está bem formada e tem alta frequência na língua, ela pertence a essa língua e deve ser registada num dicionário geral de língua.

No caso de estrangeirismos que mantêm a sua forma original no dicionário (ex.: download, email, site), trata-se maioritariamente de palavras cuja utilização está interiorizada ou cuja substituição pode colocar em causa a clareza e a concisão da informação veiculada. Em qualquer dos casos, o registo no dicionário permite ao utilizador, para além da consulta do seu significado, o conhecimento das alternativas mais vernáculas. Assim, por exemplo, um utilizador que não queira utilizar a palavra download, verifica pela consulta do verbete no DPLP que pode substituí-la por descarregamento ou que pode utilizar o verbo descarregar em vez da expressão fazer download.

Em muitos casos, o uso de estrangeirismos na sua forma original (ex.: layout) pode explicar-se pela especificidade de sentido que têm em algumas áreas (como a informática ou as artes gráficas), em detrimento de sentidos mais generalistas em outras palavras (ex.: arranjo, disposição, plano, traçado, composição). Este é provavelmente o motivo por que há resistência a muitos estrangeirismos e disto é exemplo o par site / sítio.

Em qualquer dos casos acima apontados, é útil a presença destas palavras num dicionário de português, pelo menos para ser possível propor alternativas ao consulente (independentemente de este as querer utilizar).

Um caso paradigmático da dificuldade em contornar estrangeirismos foi a tentativa de introdução de palavras mais vernáculas para o estrangeirismo futebol, (que hoje já não é sentido como tal), palavras que o uso, porém, não consagrou (cf. futebol, balípodo, bolapé, ludopédio, pedibola). Com algumas diferenças, o mesmo parece acontecer com marketing e mercadologia (cf. marketing / mercadologia).

Cândido de Figueiredo, no "Preâmbulo" do seu Novo Diccionário da Língua Portuguesa, de 1913, afirmava (o texto é igual ao da 1.ª edição, de 1899):
"Mas onde a crítica fácil mais convictamente me alvejará é na inscripção, que eu faço, de gallicismos intoleráveis. [...] Por uma consideração: é que nós não sabemos se o gallicismo, hoje intolerável, será amanhan palavra portuguesa e, como tal, fará parte do thesoiro da língua. [...] Um purista, que vivesse há quatro ou cinco séculos, devia sentir ondas de indignação, quando visse começar a usar-se libré, arranjar, ferrabrás, marau, freire, grifa, genebra, bilhete, betarraba, besonha, febre (adj.), petigris, poteia, poterna, abreuvar, assembleia, petimetre, grelo, gaio (alegre), gage, greu, móela, gredelém, etc., porque todas essas palavras eram puras francesias; hoje... são portuguesas. ¿Quem sabe o que succederá aos mais intoleráveis gallicismos de hoje?"
Aquilo que Cândido de Figueiredo apontava aos galicismos pode hoje, da mesma forma, ser aplicado aos anglicismos, assim como uma outra afirmação que o autor faz mais adiante e se pode aplicar à lexicografia contemporânea: "o Diccionário é o que deve sêr: reproducção de factos e não tribuna de reformador."

Refira-se ainda que não há, em Portugal, uma instituição com funções efectivas na definição de norma ou na normatização linguística. A este respeito, é interessante verificar a posição da Academia das Ciências de Lisboa, uma "instituição interdisciplinar" (Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, Lisboa: Verbo, 2001: p. ix), que não se pode assemelhar às academias espanhola e francesa, as quais "nasceram só para o estudo das [respectivas] Línguas", como refere Pina Martins, Presidente da Academia à data do seu prefácio ao Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa. Em Portugal, a Academia das Ciências de Lisboa é, ainda assim, a entidade que estatutariamente se constitui como "o órgão consultivo do Governo Português em matéria linguística " (Art.º 5.º dos Estatutos da Academia das Ciências de Lisboa). O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, emanado dessa instituição, procedeu também ao tratamento de um conjunto considerável de estrangeirismos, propondo aportuguesamento nuns casos, mantendo as grafias estrangeiras noutros.

A este propósito, e porque referiu o francês, veja-se, a título de exemplo, os casos relativos ao espanhol e ao francês. A Real Academia Española, no seu Diccionario Panhispánico de Dudas disponibilizado on-line, pronuncia-se sobre o uso dos estrangeirismos em geral, sempre com o propósito de incluir o que deve ser incluído e de substituir o que é desnecessário, ou ainda sobre o uso específico de palavras como web. Relativamente à Académie Française, veja-se a lista de estrangeirismos incluídos na nova edição em preparação do Dictionnaire de l'Académie française. O que se demonstra assim é que mesmo essas academias, com o seu característico grau de conservadorismo, têm necessidade de lidar com os estrangeirismos, não se limitando a recusar o seu uso.

Palavra do dia

guas·ca guas·ca
(quíchua uáskha)
nome feminino

1. [Brasil]   [Brasil]  Correia feita de couro cru.

nome de dois géneros

2. [Brasil]   [Brasil]  Habitante da roça. = CAIPIRA

adjectivo de dois géneros e nome de dois géneros
adjetivo de dois géneros e nome de dois géneros

3. Relativo ao estado brasileiro do Rio Grande do Sul ou o seu natural ou habitante. = GAÚCHO, RIO-GRANDENSE-DO-SUL

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in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2020, https://dicionario.priberam.org/Beklopptenschulen [consultado em 20-09-2020]