Dicionário Priberam da Língua Portuguesa
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Dúvidas linguísticas


Existem muitos verbos que usamos como transitivos diretos (ex.: Paula irritou Pedro), mas, quando usados com relação a Deus, sempre aparecem como indiretos (ex.: essa atitude irritou a Deus). Isso é correto?
No exemplo referido e em outros afins, trata-se de uma construção com um verbo considerado transitivo directo, mas usado com um complemento iniciado pela preposição a (que é uma construção típica dos complementos indirectos).

Por este motivo, poderia parecer à primeira vista que se trata de um complemento indirecto, como em ofereceu uma flor a seu pai = ofereceu-lhe uma flor. No entanto, em irritou a Deus, o complemento a Deus só pode ser pronominalizado com o pronome de complemento directo (irritou-O, e não *irritou-Lhe). Estes complementos são por isso habitualmente designados por complementos directos preposicionados.

As construções com complemento directo preposicionado são normalmente descritas pelas gramáticas como ocorrendo "com os verbos que exprimem sentimentos" (Celso CUNHA e Lindley CINTRA, Nova Gramática do Português Contemporâneo, Lisboa: Edições Sá da Costa, 1998, pp. 143), mas esta descrição é muito vaga e insuficiente, pois na verdade são construções usadas em contextos muito restritos e pouco usuais, geralmente apenas no discurso religioso. Estas construções ocorrem sobretudo em contextos com verbos como adorar, amar, bendizer, honrar, louvar ou temer e a palavra "deus" como complemento directo (ex.: amar a Deus), mas ocorrem também com outros complementos directos aos quais se dá, de alguma forma, uma relevância reverencial ou respeitosa (ex.: amar ao próximo).

Por outro lado, o conjunto de verbos a que se pode estender este tipo de construção é difícil de delimitar e identificar. O exemplo dado (irritou a Deus) é disso prova, pois o verbo irritar não aparece em gramáticas e dicionários nos exemplários de verbos com este comportamento, mas tem uso efectivo em discursos religiosos e afins.

Mais difícil ainda é delimitar quando é que estas construções se podem estender a outros complementos directos a que se quer dar carácter reverencial, com este ou com outros verbos considerados transitivos directos (por exemplo, se podemos ou não aceitar sem problemas Paula irritou a Pedro ou Paula admoestou a Pedro).

Pelos motivos acima apontados, pode dizer-se que a construção irritou a Deus não pode ser considerada incorrecta, pois segue um paradigma que é comummente aceite para outros verbos. No entanto, se se quiser evitar construções que possam ser polémicas ou questionáveis, o uso desta construção deverá ser limitado aos exemplos tidos como mais comuns (ex.: adorar a Deus, temer a Deus).




Eu introduzi o termo caracteres no Dicionário da Língua Portuguesa On-line para precisamente ver o que dizia no singular, e qual o meu espanto quando vejo que o singular de caracteres é carácter, que tem a ver com "cunho especial que distingue as coisas entre si". Eu penso/suponho que o singular de caracteres seja caracter sem o acento na letra 'a', senão terá o outro significado já dito. Peço a vossa correcção ou a devida explicação detalhada.
De facto, no português europeu (de Portugal) o singular de caracteres é carácter. Trata-se de um plural irregular que faz deslocar o acento tónico da sílaba -rá- de carácter para a sílaba -te- de caracteres. Isto acontece provavelmente por ser uma forma de derivação culta, a partir do latim caracter, eris, correspondendo a acentuação em português às vogais longas do latim.

A palavra caracter ou caractere tem muitas ocorrências, mas é ainda considerada uma forma desaconselhada no português de Portugal. Qualquer destas formas surgiu por dedução a partir do plural irregular, isto é, nos contextos de carácter em que a palavra aparece mais frequentemente no plural (por exemplo, os caracteres tipográficos, os caracteres de um texto, digitar caracteres), os falantes fizeram a regularização, por hipercorrecção, do singular a partir do plural irregular, retirando a terminação do plural (-es ou -s) e mantendo a acentuação tónica do plural (caracter[es] ou caractere[s]).

No português do Brasil, a forma caractere surge já em vários dicionários (por exemplo no Dicionário Houaiss e no Dicionário Aurélio), com as acepções relativas a letras, tipos ou sinais, no domínio da tipografia e da informática.

A edição portuguesa do Dicionário Houaiss (Círculo de Leitores, 2002) é a única obra lexicográfica portuguesa a registar caracter como palavra do português de Portugal, mas considera-a, no entanto, menos correcta do que carácter.

O fenómeno não é exclusivo da palavra carácter. O mesmo acontece frequentemente com a palavra júnior, por exemplo, cujo plural irregular é juniores (com o acento tónico na sílaba -o-, juniores). O plural desta palavra está na origem de um singular junior que, tal como caracter ou caractere, deverá ser evitado.

O FLiP (www.flip.pt) inclui um corrector ortográfico que permite resolver dúvidas semelhantes, ao detectar erros e formas desaconselhadas.

Palavra do dia

ba·a·í·smo ba·a·í·smo
(árabe baha, esplendor + -ismo)
substantivo masculino

[Religião]   [Religião]  Religião monoteísta, baseada no babismo, que enfatiza a união de toda a humanidade e de todas as religiões. = BAHAÍSMO

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in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2020, https://dicionario.priberam.org/descompuxeres [consultado em 21-01-2020]